Orientação para Saúde Preventiva
       Dr. José Luiz Miranda Guimarães


Câncer de Próstata: Prevenção

   Poderíamos dizer que a próstata é o coração da pelve masculina. Esse órgão é uma glândula que está intimamente relacionada com a uretra, situada logo abaixo da bexiga masculina. Sua verdadeira função ainda permanece um mistério, entretanto ela é responsável pela produção do líquido seminal. Seu tamanho depende fundamentalmente da idade do indivíduo e da presença de hiperplasia prostática benigna (condição comumente encontrada nos homens a partir dos 50 anos). Com relação a sua forma, variações são observadas com relativa freqüência. Uma das características ímpares desse órgão é a propriedade de crescer continuamente durante a vida do homem. Para se ter uma idéia, um homem de 60 anos possuirá uma próstata com duas a três vezes o tamanho de uma próstata aos 20 anos. O fator responsável por este crescimento contínuo ainda permanece uma incógnita.
   O número de casos diagnosticados anualmente é, no mínimo, preocupante. Nos Estados Unidos aproximadamente 320.000 novos casos são vistos a cada ano, com 41.400 mortes observadas no mesmo período, sendo que a taxa de mortalidade vem aumentando de forma discreta, porém contínua. No Brasil, apesar de não dispormos de estatísticas confiáveis, estima-se que a cada ano tenhamos por volta de 200.000 novos casos de câncer de próstata, com aproximadamente 25.000 óbitos devidos a esta neoplasia.
   Permanece atual a preocupação de J. Kahler, que em 1939 reconheceu que a prevalência desta doença aumenta com a idade, e que com uma maior expectativa de vida, invariavelmente a incidência aumentará drasticamente. Em estudos de necropsias realizadas em indivíduos que vieram a falecer de outras causas, a incidência de câncer prostático gira em torno de 50% aos 70 anos de idade. Aos 80 anos a probabilidade de que venha a possuir esta doença, é da ordem de 70%.
   Portanto, o câncer de próstata se caracteriza por ser um dos maiores problemas de saúde pública, em função da alta prevalência, do aumento da taxa de mortalidade e, sobretudo pelo fato de que a expectativa de vida apresenta crescimento a olhos vistos. Algumas considerações são fundamentais para entendermos as razões do alerta à população e, sobretudo as justificativas para uma mudança no comportamento individual.
   Três estratégias podem evitar e prevenir o surgimento de um câncer de maneira genérica. A primeira delas seria a redução da exposição do indivíduo a certas toxinas (substâncias nocivas) ambientais que sabidamente promovem ou induzem as células prostáticas a um crescimento desordenado, levando ao surgimento de um câncer. O mecanismo exato para estes eventos celulares ainda permanece desconhecido, porém, necessariamente, este mistério será desvendado com a biologia molecular. Até o presente momento, não se tem notícia de que alguma substância tenha a propriedade de produzir o câncer de próstata. Portanto, esta estratégia de prevenção é inócua.
   A modificação de um comportamento de risco é uma das ações preventivas que freqüentemente são implementadas em políticas de saúde, tendo com exemplo clássico o Tabagismo e sua relação com o câncer de pulmão. Com relação ao câncer de próstata, podemos identificar pelo menos 3 fatores bem estabelecidos. A idade avançada, história familiar de um câncer de próstata e alterações do epitélio glandular (neoplasia intraepitelial prostática) são os maiores fatores de risco para o desenvolvimento da doença. Além disso, alguns estudos vêm demonstrando que altos teores de gordura na dieta, também são associados com o câncer de próstata. Os dois primeiros fatores de risco não podem ser evitados, porém poderemos trabalhar numa melhor orientação nutricional. Com relação a alterações celulares (proliferação e displasia) do epitélio prostático, a identificação e acompanhamento do urologista se impõe, cabendo a cada caso uma abordagem específica.
   Outra estratégia preventiva que vem, nos últimos anos, tendo avanços importantes é a administração de agentes (drogas) quimiopreventivos. Ainda não dispomos de um agente ideal. Este medicamento deve possuir baixa toxicidade, facilidade na sua administração, custo baixo e, sobretudo uma comprovada eficácia na prevenção do desenvolvimento da neoplasia maligna.
   Há tempos postula-se que os hormônios masculinos (andrógenos) tenham um papel importante no surgimento do câncer de próstata, provavelmente como resultado de um efeito estimulador androgênico na proliferação epitelial prostática. Portanto, o andrógeno pode servir como agente promotor ou de progressão no câncer de próstata.
   Algumas evidências circunstanciais sugerem que o Finasteride tem um efeito quimiopreventivo, através da inibição de uma enzima importante (5 redutase) para a formação de dihidrotestosterona, que é normalmente encontrada em altos níveis na glândula prostática. Outras drogas estão sendo investigadas, como a Difluorometilornitina e os Retinóides.
   Apesar disso tudo, a maioria dos cânceres de próstata (adenocarcinomas) continua a ser clinicamente diagnosticado em estágios avançados, reduzindo significativamente as chances de cura, enquanto que em estágios precoces, taxas de cura elevadas são freqüentes. Estudos recentes demonstram que o exame retal e a dosagem sérica do PSA (antígeno prostático específico) são associados com baixíssima morbidade e, além disso, é possível que a detecção precoce, através destes procedimentos, permita reduzir a taxa de mortalidade por câncer de próstata. Além disto, o custo dispensado para o tratamento de um paciente em estágio avançado é de 3 a 6 vezes maior do que o custo necessário para tratar um paciente em estágios precoces.
   Qual a atitude prática que devemos tirar de todas estas evidências?
   Acreditamos que o mais importante é encarar a doença como uma possibilidade real, pois somente assim poderemos tomar atitudes efetivamente preventivas. Portanto, um hábito alimentar saudável (com baixos teores de gordura) é o passo inicial. O fato de ter tido um parente próximo com câncer de próstata, não deve ser omitido do médico. A presença de qualquer sintomalogia urinária (sangramento urinário, dificuldade para urinar, dor ao urinar, diminuição do jato urinário etc.) requer uma avaliação urológica. Após os 40 anos de idade, a consulta urológica anual de rotina faz-se mister, ocasião em que o urologista realizará o exame retal e definirá a freqüência da dosagem do PSA (antígeno prostático específico).
   O uso de medicamentos quimiopreventivos ainda permanece sob investigação clínica. Porém, um dos problemas que se deve ter atenção atualmente, é o uso indiscriminado de anabolizantes que provocam alterações importantes no epitélio da próstata e que podem induzir o aparecimento de câncer.
   A grande arma de que dispomos para diminuir consideravelmente os malefícios causados pelo câncer de próstata é a prevenção, como de resto todos os tipos de cânceres. Se não conseguimos evitá-lo, pelo menos teremos uma chance considerável de obter índices de cura bastante elevados, se tomarmos alguns cuidados.